Sentido da Vida em Perspectiva Interdisciplinar: uma Pedagogia para a Descoberta do Sentido da Vida
(Transcrevo o presente artigo, em duas partes, publicado na Revista Internacional d’Humanitats 21 jan-jun 2011 - CEMOrOc-Feusp / Univ. Autònoma de Barcelona - tendo em vista a oportunidade do tema para a construção de uma Educação Integral nos dias atuais)
Jair Militão da Silva
Resumo: O artigo apresenta uma reflexão sobre o sentido da
vida como elemento constitutivo da vida humana feliz. Mostra a dificuldade
atual de encontro de significados marcantes para a vida das pessoas tendo em
vista a alienação e desumanização presente nas relações sociais. Propõe alguns
elementos para uma pedagogia da descoberta do sentido da vida, entre os quais a
constituição de sujeitos humanos que vivam a vida como acontecimento e aprendam
a responder, comunitariamente, às demandas postas cotidianamente pela vida.
Palavras-Chave: educação; sentido da vida; pedagogia da
humanização; sujeitos; responsabilidade, educação integral.
Abstract: This
article discusses the meaning of life as an element of a happy human life. In
our age, dehumanization and alienation in social relations make difficult to
find relevant meanings for life. This article proposes a “Pedagogy of finding
meaning of life” in which an element is the constituion of human subjects
living life as happening: answering communitarianly to the demands of everyday
life.
Key words:
education; meaning of life; pedagogy of humanization; subject; responsibility,
integral education.
Parte I
Informação e conhecimento
Um fenômeno que, sem dúvida, caracteriza os dias de hoje é
o grande volume de informação disponível à maioria das pessoas, de modo
especial àquelas que podem ter acesso às redes mundiais de computadores. De
fato, a expressão tão comum entre os jovens “jogar no google” simboliza a fonte
quase inesgotável de informações à qual se pode dirigir quem busca resposta
para alguma pergunta.
Todavia, nem toda informação é conhecimento se por este
considerarmos aquela informação referendada por uma comunidade de conhecimento
com reconhecida validade. Exemplo disso podem ser as famosas e comuns receitas
para emagrecimento: estão à disposição para quem quiser informar-se;
entretanto, quais as que podem ser aceitas com credibilidade e que sejam
efetivamente adequadas para cada pessoa considerada em sua peculiaridade?
Apenas aquelas oriundas da comunidade médica, cuja chancela seja feita por
nutricionistas, endocrinologistas, ou outros profissionais da área. Desse modo
é possível dizer que hoje há mais informação do que conhecimento.
Conhecimento especializado e perda da
totalidade
Ao examinarmos a situação do conhecimento efetivamente
validado por comunidades de conhecimento um outro aspecto merece ser destacado:
é a especialização que aprofunda aspectos de um dado objeto de modo tão intenso
que se corre o risco da perda da dimensão da totalidade desse mesmo objeto.
Ainda, valendo-se de exemplo retirado da área da saúde,
podemos constatar a ocorrência de abordagens especializadas em “mãos”, que não
conseguem dar conta do “estômago”, por vezes agredido pelos analgésicos.
Frankl, autor de uma profunda reflexão sobre o homem,
afirma:
Las
definiciones con las cuales las ciencias, individualmente, han descripto la
realidad, se han vuelto tan disparatadas, tan diferentes unas de otras, que es
cada vez más difícil obtener una fusión o síntesis de todas ellas. La
diferencia entre definiciones no debe constituir una pérdida, sino más bien una
ganancia en el conocimiento. En el caso de la visión estereoscópica, es la gran
diferencia entre el lado derecho y el lado izquierdo de una imagen la que
asegura la adquisición de una dimensión de conjunto, esto es, el espacio
tridimensional por sobre las dos dimensiones del plano. Y, sin duda, existe una
precondición para ella. Las retinas deben ser capazes de arribar a la fusión de
las diferencias! Aquello que ocurre con la visión ocurre con la cognición. El
desafío es cómo lograr, cómo mantener y cómo restaurar un concepto unificado de
hombre ante tantos datos, hechos e descubrimientos dispersos, aportados por una
fragmentada ciencia del hombre. Pero no podemos hacer retroceder la historia.
La sociedad no puede funcionar sin especialistas. El estilo de investigación
está demasiado caracterizado por el trabajo en equipo, y en la estructura del
trabajo en equipo, el especialista es indispensable. (Frankl, 2005, p.25-26)
Diante dessa lógica na qual um aprofundamento em um dado
aspecto tem levado à perda da totalidade, ocorrem movimentos contínuos de busca
de recuperação dessa mesma totalidade. A história registra movimentos mundiais
de unificação da ciência, especializada e compartimentalizada, em nome do
desejo de percepção do todo em cada objeto.
Assim, aparecem propostas identificadas como inter, trans,
multi, disciplinares que sustentam a possibilidade e a necessidade de
unificação do conhecimento. No caso da interdisciplinaridade, no campo
educacional Fazenda registra que:
O movimento da interdisciplinaridade
modela-se por meio do entendimento mais profundo do sentido do humano, ou
melhor, das atitudes que o homem tem diante do ato de conhecer. Nestas quatro
décadas, a interdisciplinaridade acaba consolidada como teoria gestada em
diferentes centros de referência muito importantes, todos ligados à Unesco,
tais como: Canadá (Cripfe – Centro de Pesquisa e Investigação em
Interdisciplinaridade na Educação); Estados Unidos (IAD – Centro de Estudos
Interdisciplinares na Aprendizagem); França (Cirid – Centro de Estudos sobre
Interdisciplinaridade nas Ciências Humanas) e no Brasil (Gepi – Grupo de
Estudos e Pesquisas em Interdisciplinaridade) (...) Nele foram produzidas mais
de 50 pesquisas, todas descrevendo e analisando práticas interdisciplinares
bem-sucedidas do pré-escolar ao superior. (Fazenda, 2003, p. 9)
Como um dos resultados das contínuas pesquisas sobre o
conhecimento pode ser indicado aquele que constata o fato de que o desejo de
alcançar a totalidade e, desse modo, atingir a visão de todo o objeto não é
contemplada mediante a somatória das diversas contribuições das áreas de
conhecimento. Antes, é o sentido que o sujeito do conhecimento descobre no
objeto que unifica seu conhecimento sobre este.
Portanto, o sentido é que permite atingir o máximo de
conhecimento possível.
É ainda, Fazenda quem diz: “Interdisciplinaridade é uma
nova atitude ante a questão do conhecimento [...]. A metáfora que a subsidia,
determina e auxilia na sua efetivação é a do olhar.” (Fazenda, 2003, p. 9).
Em uma visão mais atenta ao fenômeno do conhecer, é
possível perceber que o sujeito só pode captar... aquilo que pode captar e,
desse modo, a totalidade que abarca tem a dimensão do sentido que atribui e
descobre na relação com o objeto. Em outras palavras, conhecer o objeto é
responder à pergunta o que é este objeto para mim? A resposta unificará a
relação de conhecimento.
A atenção para uma visão mais ampla possível pode tornar-se
um princípio orientador na procura do conhecimento e no desenvolvimento de
ações efetivas na sociedade. Isso pode ser constatado na importante Carta
Encíclica sobre o desenvolvimento humano integral na caridade e na verdade
oferecida por Bento XVI:
O saber humano é insuficiente e as
conclusões das ciências não poderão sozinhas indicar o caminho para o
desenvolvimento integral do homem. Sempre é preciso lançar-se mais além:
exige-o a caridade na verdade. Todavia ir mais além nunca significa prescindir
das conclusões da razão, nem contradizer os seus resultados. Não aparece a
inteligência e depois o amor: há o amor rico de inteligência e a inteligência
cheia de amor. Isso significa que as ponderações morais e a pesquisa científica
devem crescer juntas e que a caridade as deve animar num todo interdisciplinar
harmônico, feito de unidade e distinção. A doutrina social da Igreja, que tem
“uma importante dimensão interdisciplinar”, pode desempenhar, nesta
perspectiva, uma função de extraordinária eficácia. Ela permite à fé, à
teologia, à metafísica e às ciências encontrarem o próprio lugar no âmbito de
uma colaboração ao serviço do homem; [...] A excessiva fragmentação do saber, o
isolamento das ciências humanas relativamente à metafísica, as dificuldades no
diálogo entre as ciências e a teologia danificam não só avanço do saber, mas
também o desenvolvimento dos povos, porque, quando isso se verifica, fica
obstaculizada a visão do bem completo do homem nas várias dimensões que o
caracterizam. É indispensável o “alargamento do nosso conceito de razão e do
uso da mesma” para conseguir sopesar adequadamente todos os termos da questão
do desenvolvimento e da solução dos problemas socioeconômicos. (Bento XVI,
2009, p.50-52)
(...continua na Parte II)

Comentários
Postar um comentário