Sentido da Vida em Perspectiva Interdisciplinar: uma Pedagogia para a Descoberta do Sentido da Vida

 

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Parte II

Perguntar-se sobre o sentido da vida

E quando é a própria vida do sujeito e de seus semelhantes o objeto a ser conhecido? Aqui também o caminho é perguntar-se sobre o sentido. Por isso encontrar o sentido da vida é de suma importância para a compreensão da própria vida e a dos semelhantes. A observação atenta sobre o ser humano, sobre nós mesmos, pode indicar algumas características que nos ajudam a compreender como somos.

Uma primeira constatação é a de que temos em nós um desejo de conhecer a realidade, de compreendê-la, de tê-la conosco, de entrarmos em comunhão com ela, de sermos capazes de criar unidade e viver desse modo com a realidade e, por isso, procuramos mudar as situações em que nos encontramos, adaptando-as aos nossos desejos.

O desejo de perfeição, de tornar o real adequado à imagem perfeita que dele fazemos é outra característica constitutiva do ser humano. É o desejo de encontrar no mundo fático o conceito perfeito existente no pensamento.

Em contrapartida, ou melhor, em consonância com o desejo de perfeição possuímos o medo e fugimos da corrupção, entendida como o rompimento da perfeição. E como a morte do ser é a corrupção máxima desejamos evitá-la aspirando à eternidade.

Corrupção também é falta de sentido nos relacionamentos consigo mesmo, com os outros e com a natureza e por isso sempre procuramos o sentido último, a razão das coisas, incluído nessas “coisas” nosso agir, nosso sentir, nosso pensar. Temos que sempre ter uma razão que justifique nosso ser e nosso agir e isto é o sentido que atribuímos à existência e à ação.

Este desejo de perfeição e a consequente fuga da corrupção do ser podem ser expressos na afirmação comum entre os antropólogos de que “o que é uno não causa nojo”. De fato, o sentimento de nojo nos impele ao afastamento enquanto o sentimento de unidade nos aproxima dos entes e das situações. Sentir-se uno é reconhecer características que nos tornam passiveis de comunhão sem a existência de fatores de repelência.

A serem verdadeiras as afirmações anteriores sobre quem somos enquanto seres humanos, é possível dizer que temos a unidade como princípio de ação e critério de verdade do ser. O ser verdadeiro é aquele que não está corrompido e que se encontra em unidade consigo e com o ambiente no qual se situe. A ação verdadeira é aquela que não está dividida em seu significado último, ainda que na prática não alcance a totalidade almejada.

O sentido é descoberto ou construído quando meu relacionamento com a vida ultrapassa a consideração dessa como mero fato e chega a vê-la como acontecimento. Um acontecimento é uma situação à qual devo responder, pois afeta a minha vida.

É o equivalente a problema que se opõe à questão, na proposta da educação problematizadora apresentada pelo educador brasileiro Paulo Freire. Nesse entendimento, questão é uma dificuldade diante da qual me encontro e que se não a resolver minha vida não será afetada em nada; problema é, igualmente, uma dificuldade diante da qual me encontro e que se não a resolver minha vida será alterada significativamente e poderei até chegar à morte. Daí a tentativa de Paulo Freire em propor uma educação problematizadora e não meramente questionadora, ou seja, uma educação que desafiasse o educando para a busca de um significado e não apenas uma tarefa sem maiores consequências para sua vida.

O problema e o acontecimento pedem uma resposta pessoal de quem os vive. Esta resposta é dada pela existência da liberdade humana e pela capacidade de ser responsável. Esta responsabilidade se põe em movimento a partir da descoberta do sentido da vida. Frankl lembra que o homem pode não ter autonomia para escolher as circunstâncias de sua vida, mas é sempre livre para responder a elas. Esta resposta depende e expressa o sentido que este homem atribui à vida.

Educar para a descoberta de sentido e para ações responsáveis significa educar para ser pessoa, sujeito de sua própria vida.

Uma forma simples de compreender o que é ser sujeito é considerar um sujeito como aquele ou aquela que é capaz de dizer sim ou não, em correspondência com seu pensamento, mesmo em situações adversas. Em outras palavras, é alguém que vê a vida como acontecimento, descobre um sentido nas demandas postas e nas respostas concebidas e compromete-se com a solução dos problemas.

A capacidade de ser sujeito e descobrir o sentido da vida é adquirida, mantida e cultivada em um ambiente humano que favoreça relações de aceitação incondicional da pessoa por causa de sua dignidade, com práticas de diálogo na verdade e no amor, entendido como a busca do bem do outro.

Há uma lógica que pode favorecer a criação desses ambientes humanos em nível micro, intermediários ou macros e que podem orientar desde a formulação de políticas públicas sociais até práticas pedagógicas em sala de aula: é o respeito à dignidade inalienável de cada pessoa; é a assunção do diálogo como método de relacionamento; é a consideração da vida como acontecimento que pede respostas orientadas pelo sentido da busca da felicidade pessoal e coletiva.

Sob o influxo dessa lógica os planejadores sociais, os operadores das agências socioeducativas, poderão dar margem à criatividade responsável e proporem alternativas às ações alienantes e desumanizadoras que tiram qualquer sentido mais digno de uma vida humana.

Assumir como fator relevante na criação, manutenção ou modificação da realidade o sujeito humano não é esquecer a força das estruturas macrosociais e econômicas; é antes dar-se conta da totalidade dos fatores presentes na situação humana e lembrar que a história é feita pelos homens, quando deixam de ser vistos e tratados como meras coisas.

Todavia, para formar sujeitos é preciso que os educadores também sejam sujeitos, tenham experimentado a vida como acontecimento e vejam como horizonte um trabalho de autoeducação.

Há um desafio posto a todos nós: descobrirmos o sentido da vida para partilhá-lo com as novas gerações. Um fato com o qual se depara todo aquele que se relaciona com crianças e jovens, seja na qualidade de mãe, pai, tio, tia, educador profissional, é o da necessidade de responder, em algum momento, perguntas sobre o sentido da vida.

A finalidade da educação, para ser adequada à natureza humana, deve buscar a verdade em suas dimensões ética, estética, gnosiológica, lógica e ôntica. O belo, o bom, o verdadeiro são objetos da busca humana de perfeição e condensam-se no Supremo Bem que orienta a conduta de cada um. Se esse Supremo Bem é adequado à natureza humana pode contribuir para que o pleno desenvolvimento dela aconteça; caso, ao contrário, esse Supremo Bem esteja aquém das imensas potencialidades humanas, podemos dizer que contribuirá para a desumanização da pessoa, reduzindo-a a dimensões menores do que aquelas a que poderia chegar. Portanto, ao educador compete ajudar o educando a perceber em que deposita suas energias, que objetivos elege para buscar a vida. São dignos de sua pessoa? Ajudam a conseguir felicidade autêntica?

Novamente aqui um critério pode ajudar: estes objetivos contribuem ou não para a inteireza do ser, para a vida em unidade consigo mesmo, com os demais seres humanos e com o ambiente natural no qual se insira? Em caso afirmativo, podem ser fortes contribuintes para a obtenção da felicidade; todavia, em caso negativo, como registra a história humana, produzem mais sofrimento desnecessário do que alegria.

A constituição do ser humano mostra como está ordenado para uma harmônica proteção da vida e dessa harmonia resulta bem-estar e felicidade. Esta harmonia só pode, pelas leis naturais, ser posta em risco em função de um bem maior, ou seja, de um acréscimo de felicidade. Veja-se o caso das ordenações celulares que se reproduzem conforme regras que visam garantir a sobrevivência da pessoa. Estas “certezas” só são deixadas de lado por uma possibilidade de um bem maior, como é o caso da reprodução humana, onde uma célula “arrisca-se” unir-se a outra “desconhecida” por causa da possibilidade do surgimento de um novo ser.

O educador interessado em promover uma educação fundada na visão de homem que valoriza a unidade como critério de conhecimento e ação precisa ter alguns elementos balizadores da caminhada.

Um dos primeiros marcos a ser observado é a busca da globalidade como critério de pensamento, entendendo-se aqui como a procura de levar-se em conta a totalidade dos fatores presentes na situação. A honestidade intelectual não permitirá “jogar para baixo do tapete” fator ou fatores que estando presente na realidade “incomodam” e passam despercebidos propositadamente. Um dos fatores mais esquecidos, geralmente, é o fato das ações humanas e do próprio ser humano estarem cheios de falibilidade, fraqueza e possibilidades de enganos e erros. A grandeza do ser humano não reside em não errar, mas, antes, em reconhecer o erro e procurar corrigi-lo. Portanto, uma educação para a felicidade é aquela que não busca criar homens infalíveis, mas sim com humildade verdadeira.

Outro sinal importante a ser levado em conta é a unidade de destino dos seres humanos. Nascemos todos da mesma maneira, em essência, e estamos todos destinados ao mesmo fim, em essência. Esta comum origem e este comum destino podem ser objetos de exame e daí resultar uma compreensão profunda do que sejam e, desse modo, serem percebidos como algo bom que traz em si possibilidades de felicidade

De modo especial, ao pensar o destino humano como algo que aparenta ter fim, o desejo de superar a corrupção do ser, de preservar a perfeição da pessoa, lembra a possibilidade da transcendência e da superação da morte ontológica como horizonte constitutivo.

Para além da morte física perdurará o ser, esta é a esperança inscrita no DNA humano. E tanto isto é verdade que no cotidiano procuramos superar as “mortes” diárias, ônticas, de nosso ser: ao não sermos levados em conta pelos que nos são mais próximos na família, na escola, no trabalho, nas amizades. Nos momentos em que sentimos que o tempo “está passando muito depressa”; quando nos falta o significado do viver. Queremos superar estas situações porque queremos viver; queremos superar a corrupção de nosso ser mediante a conquista da unidade da pessoa consigo mesma, com os outros e com o ambiente.

Que possamos descobrir que a vida tem um sentido bom, de felicidade para todos e, desse modo, tenhamos algo bom para comunicarmos a nós próprios e às crianças e jovens que constantemente chegam ao mundo.

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