Aprender a conviver nas organizações escolares


                                                                                      Arquivo pessoal


Parte 2

 

O problema do sujeito nas relações humanas

 

A pessoa se torna sujeito coletivamente, no sentido comunitário e concreto da palavra. Ela se torna sujeito com outras pessoas. Se a tentativa é individual, ela será absorvida pela organização ou pela sociedade de massas. Aqueles que conseguem ter influência social aparentemente individualista, na verdade fazem parte de um grupo.

É o grupo que ajuda a pessoa a constituir-se como sujeito. Estes sujeitos podem ser culturais ou corporativos. São grupos de pessoas que se reconhecem como pertencentes umas às outras, de tal modo que a pessoa fala: eu sou de tal grupo, de tal lugar. É uma identidade que lembra a Pirâmide das Necessidades de Maslow, onde a pessoa precisa pertencer a alguma coisa. O grande problema é a pessoa não pertencer, tanto que o castigo maior, em termos de grandes religiões é a excomunhão; em termos de nações, o expatriamento; é a pessoa sentir-se excluída.

A exclusão é uma penalidade, porque a pessoa sentir-se-á não pertencente ao grupo. Nesse sentido, esses sujeitos culturais ou corporativos, são grupos onde a pessoa se sente pertencente, se reconhece tendo mais ou menos a mesma história, a mesma perspectiva de vida, uma proposta de mundo, de sociedade explícita ou implícita.

Esses grupos têm uma característica importante, que é o que faz com que as pessoas sejam sujeitos, com a capacidade de julgar a realidade, de emitir um juízo diante dela. É muito difícil a pessoa poder chegar a este ponto de dizer “eu gosto”, “eu não gosto”, “eu concordo”, “eu não concordo”.

Ser sujeito nas organizações concretas não é fácil. A característica do sujeito é emitir um juízo sobre a realidade. Quando ele julga a realidade, quando ele compara o que está acontecendo com uma identidade que é dele, ele está sendo sujeito.

Quando a pessoa não consegue ser sujeito ela não julga, ela só absorve o julgamento que o outro faz. Portanto uma característica do sujeito cultural ou corporativo é a capacidade de julgamento.

 

Qual a diferença entre um e outro?

 

O sujeito corporativo julga a realidade visando mais o interesse próprio, não se preocupando com o interesse do outro.

O sujeito cultural é aquele tipo de agrupamento humano capaz de fazer julgamentos de tal maneira que o que é considerado bom para ele, precisa também ser bom para os outros. O que ele propõe pode ser universalizado, por isso, é cultural.

Uma sociedade composta de sujeitos culturais, necessariamente, tem que se basear no diálogo, na democratização das relações.

Uma escola ou empresa organizada com base em sujeitos culturais tem outra estrutura hierárquica, outra relação de funcionamento. O sujeito cultural, ao entrar em contato com a realidade, vai encontrar outro sujeito. Decorre daí o debate cultural e, “vence” aquele que consegue explicitar e justificar melhor as necessidades humanas mais generalizadas.

As empresas mais avançadas têm grupos de pesquisa atuando sobre essa dinâmica humana. Através de estudos, chegaram à conclusão de que não é a classe que move, não é o sujeito individualmente, mas são os grupos.

Estudando esses grupos, descobriram que a chave para sua compreensão é a cultura, ou seja, o significado atribuído às coisas. A grande descoberta é que não existe um significado único, baseado na classe a que alguém pertença, no seu poder econômico ou no seu status. Existem significados diferentes que constituem o aspecto cultural. Essa diferença de significados é que dá solidez às pessoas e aos grupos.

O que constitui as pessoas é o sentido da vida que, sendo forte, faz com que as pessoas dêem a vida por ele.

Em algumas teorias filosóficas e psicológicas, o valor máximo é o sentido da vida, também chamado supremo bem. É o sentido de totalidade que une a vida das pessoas.

A sociedade burocrática não consegue unir a pessoa, mas compartimenta para que viva papéis. Isso pode levar à esquizofrenia, problema das personalidades múltiplas. Quando a pessoa tem um sentido unitário para a vida global, ela resiste a essa compartimentação.

Não é fácil chegar a esse sentido global porque a sociedade, normalmente, não ajuda. A pessoa vai chegar a isso se conviver num grupo que seja sujeito cultural.

As empresas perceberam que muitas pessoas já tentavam viver isso; manipulando esse significado global, as empresas se colocam como sendo o sentido da vida da pessoa. Se ela trai a empresa, está traindo quem dá a vida por ela. Isso gera uma porção de problemas. Para a pessoa se humanizar, precisa viver os grupos culturais e ter esse sentido de vida. As relações humanas se processam quando se constituem esses sujeitos.

Na situação de sala de aula, quando se favorece a existência da expressão desses sujeitos, é que se processam as verdadeiras relações humanas. Dessa forma, as pessoas se constituem mais em sujeitos do que em objetos.

A ideia de totalidade pode ser entendida como a soma das partes, como no caso da teoria Sistêmica, no sentido oriental ou no sentido dialético. Há um modo que serve para conseguir totalidade pelo significado que a pessoa dá às coisas: unir toda a vida ao significado que se possa atribuir à realidade.

 Os conceitos básicos nesta posição são o de pessoa e o de cultura. Assim, todos os autores que trabalham com estes conceitos, são importantes.

O problema é recuperar a ideia de que cada um de nós precisa dar significado às coisas, já que isto foi perdido na medida em que se propagou a ideia da existência de um significado único dado pela ciência.

 

Escola e realidade social

 

Uma colocação, de fundamental importância, é aquela que diz respeito às relações entre escola e sociedade. Reside aqui grande parte da resistência à ideia de participação encontrada em nossas escolas. Seja como resistência à participação dos alunos por parte dos professores, especialistas ou funcionários; seja por parte dos alunos e dos pais como um não acreditar na necessidade ou utilidade da participação, o que está em jogo, em última análise, é a pergunta: adianta participar? Ou, em outras palavras: A escola tem poder de influir na realidade para mudar alguma coisa?

Apesar de fazer parte já há algum tempo do universo discursivo dos profissionais de educação termos tais como: reprodução, progressista, neutralidade, para designar posturas teóricas que afirmam ora que a escola apenas reproduz uma dada estrutura social nada podendo fazer para modificá-la, ora afirmam ser a escola uma instância neutra da sociedade, não tendo peso no sentido de manter ou transformar a realidade social, ora, ainda, vendo a escola como lugar de luta, de vida, no qual se desenrola uma ação que tanto pode caminhar num sentido de mudança ou num sentido de permanência, o peso do cotidiano escolar, na maioria das vezes, exerce uma forte pressão na direção da criação de uma percepção de que nada vai mudar, de que nada muda.

Torna-se necessário, a este ponto, perguntar-se: o quê é a realidade? Qual é a dinâmica que permite à realidade social manter-se ou transformar-se? 

Sem que se enverede por profundas considerações de ordem epistemológica, mas visando tão somente a busca de um adequado equacionamento do problema aqui considerado – participação estudantil – pode-se afirmar, sem leviandade teórica, que a realidade são as coisas, as pessoas, a materialidade objetiva com a qual o homem defronta-se diariamente e o significado que as pessoas atribuem a si mesmas, às coisas, ao relacionamento que têm entre si e com as coisas.

Isso significa afirmar que a realidade apresenta duas dimensões, que se completam, mas que apresentam relativa autonomia uma em relação à outra: uma dimensão objetiva (coisas, pessoas, estruturas) e uma dimensão subjetiva (significado, sistemas).

 

Realidade, Cultura e Identidade Cultural

 

Um conceito de grande valor hermenêutico para o tratamento de ambas as dimensões é o de cultura, entendida como o modo de produzir a vida e os significados (valores, práticas, produtos etc.). Para a compreensão de uma dada cultura o exame de temas básicos, tais como: nascimento, procriação, morte, trabalho, é tarefa prioritária.

A cultura, tal como aqui se entende, produz uma personalidade, gera uma identidade cultural que condiciona o “eu” pessoal e coletivo. Os limites da ação do “eu” são dados pelas condições objetivas e igualmente pelas condições subjetivas.

Desde um nível, ao qual se poderia chamar macro, tal como é o caso do fenômeno do colonialismo, no qual a dominação que se inicia pela força armada completa-se quando a identidade do colonizado incorpora a figura do dominador como algo positivo, até o nível micro, observável no cotidiano da escola, quando os alunos não entram na sala dos professores ou da direção por não se considerarem dignos... pode-se perceber o peso efetivo que existe da identidade que uma pessoa ou grupo assume para o seu agir e para o seu modo de ser, de pensar, de entender o mundo. Afirmações tais como: não adianta, nada vai mudar; quem sou eu para pensar em mudar alguma coisa etc. são bem mostras da identidade cultural assumida e condicionando, no caso negativamente a possibilidade de atuação da pessoa.

A escola, ao nível concreto da unidade, participa do “esforço coletivo pela transmissão da cultura”, ou seja, no processo de divisão social do trabalho entre as instituições sociais numa sociedade organizada tal como a nossa, compete à escola, independentemente da vontade individual de seus integrantes, a tarefa de lutar por um dado significado, formar uma dada “mentalidade”. Ao lado dos meios de comunicação social, da família, quando esta existe, dos clubes, das igrejas, etc., a escola contribui para a formação de uma dada identidade cultural. 

O instrumento privilegiado utilizado pela escola para o desempenho de sua missão tem sido o currículo, em sua dimensão explicita ou implícita (oculta). Mediante a fixação de conteúdos, de formas e de juízos de valor, a organização curricular, desenvolvida na concreta instituição escolar, tem, portanto, real incidência na vida de crianças e jovens, igualmente concretos e participantes da realidade social.

Aqueles que trabalham na escola não podem, portanto, dizer: estamos na escola apenas para passar o tempo, de vez que ela – escola – nada tem a ver com a realidade social que a cerca. Trata-se, antes, de perguntar-se sobre os rumos da prática escolar e sua conexão com as práticas sociais gerais ocorrentes na sociedade como um todo; trata-se de perguntar-se sobre a que projeto de sociedade e a que identidade cultural serve o trabalho que cotidianamente, dia após dia, ocorre na escola.

Portanto, pensar a participação estudantil nas escolas de Educação Básica é também pensar a direção, o rumo das práticas escolares concretas desenvolvidas na unidade escolar, Que “personalidade” busca-se formar? Participativa? Alienada? Totalitária? Democrática? Prestadora de serviço? Manipuladora? Embora, certamente, ao nível do discurso, seja fácil a elaboração de uma resposta “certa”, é ao nível de práticas concretas que se encontra a resposta verdadeira...

 

Porque formar para a participação

 

Sem recorrer a argumentos de natureza filosófica, ética ou religiosa, pode-se pedir aos trabalhadores em educação que meditem ao menos naquilo que se pode chamar “efeito bumerangue”, ou seja: contribuímos para a formação de pessoas com as quais iremos com grande possibilidade, conviver. Queremos conviver com pessoas tolerantes, abertas ao diálogo, que buscam a justiça, ou queremos conviver com pessoas intolerantes, que aprenderam a não valorizar a vida humana, nem a sua nem a dos outros... Assim, ao menos por um sadio “egoísmo”, a meta deve ser buscar formar pessoas com uma identidade favorável ao convívio humano.

Formar, ou mais precisamente, lutar para formar (de vez que concorrem com a escola outras “agências” formadoras) personalidades mais democráticas supõe, e mesmo exige, formar pessoas com capacidade de participação. De fato, ou a convivência humana, com seus conflitos inevitáveis, funda-se na participação e no diálogo, ou funda-se na exclusão e na imposição arbitrária e unilateral.

Àqueles que optam por tal tipo de luta resta ainda a tarefa de criar instrumentos adequados à sua caminhada, de vez que a cultura dominante não oferece “currículos para a participação”; antes, ao contrário.

Nesse sentido, não existindo práticas já plenamente consagradas, cada um deve ter a coragem suficiente para iniciar o caminho, correndo os riscos daí advindos. A troca de experiências, todavia, entre os que caminham, será sempre bem-vinda.

 

O que fazer?

 

Com este espírito de troca de experiências, algumas indicações podem ser feitas.

Uma primeira refere-se no fato de que o tema da participação estudantil aparece, geralmente, no âmbito escolar com o título “formação do cidadão”. Torna-se, então, útil perguntar: quem, ou o quê é o cidadão?

Essa pergunta tem sido respondida de diversas formas, entre as quais tem predominado duas, que podem ser fonte de equívocos, como já se discutiu anteriormente. São elas: formar o cidadão é formar o indivíduo. Isso quer significar, na maioria das vezes, formar o individualista, ou seja: “formar um “campeão de participação” que é, todavia, isolada, nada mais sendo do que uma busca de êxito na qual não se leva em conta as necessidades dos demais. Formar o cidadão é formar a classe. Infelizmente, entretanto, classe é, como demonstra a experiência cotidiana, entendida como um conceito dotado de poder mágico de transformação da realidade, não se atentando para as necessárias mediações que se dão no transcorrer da história. Passa-se a pensar, grosseiramente, que basta o “cidadão” saber-se pertencente aos explorados que essa “consciência adquirida” o impulsionará para a luta pela transformação.

O não perceber que a dinâmica social concreta, para o seu mover-se supõe a existência de sujeitos concretos dotados de poder político e que esses sujeitos não são os “grandes homens da história”, mas grupos humanos, compostos por pessoas que se reconhecem numa mesma identidade cultural, com um sentido de nós, comprometidos eticamente uns com os outros, tem levado a ação educativa a não ser tão eficaz como poderia ser.

Formar esse Sujeito Cultural, esse Nós Ético, exige por parte dos trabalhadores em educação algumas condições pessoais iniciais, sem as quais a tarefa pode tornar-se desnecessariamente dolorosa, custosa, e até mesmo ineficaz.

Entre outras, as seguintes condições podem ser apontadas:

a)                  Aceitar o diferente (essa é a base inicial como postura);

b)       Não ver no outro um inimigo (e, assim, não ter medo e, em consequência, não ter necessidade de ser “agressivo”):

c)             Perceber-se principalmente como educador (e não o responsável pelo status quo, de modo que uma alteração neste não implica em questionamento da própria pessoa, mas sim da situação; estar atento à criança e ao jovem que quer participar e não às formalidades legais);

d)          Aceitar o debate, o diálogo, o conflito (ter como critério que julga a validade das decisões o benefício social, que não suprime o benefício pessoal justo);

e)        Recuperar o sentido preciso de “política” entendendo-a como uma dimensão conatural à vida humana e instrumento de busca de entendimento para o coexistir, superando a caracterização de política como algo sujo e corrupto (lembrar que se é assim atualmente, essa não é a única possibilidade);

f)        Lembrar que, por tratar-se de uma situação educativa, os exemplos extraídos da própria vida documentam e testemunham melhor que os discursos a adesão efetiva da pessoa, tendo maior efeito nos educandos;

g)    Finalmente, torna-se útil reiterar que, num país com tão poucas tradições de efetiva participação popular, os modelos não são facilmente encontráveis. Trata-se, portanto, de ir fazendo o caminho ao caminhar...

Comentários

Postagens mais visitadas deste blog

Aprender a conviver nas organizações escolares

Sentido da Vida em Perspectiva Interdisciplinar: uma Pedagogia para a Descoberta do Sentido da Vida