Aprender a conviver nas organizações escolares

 

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Aprender a conviver nas organizações escolares *

 

Jair Militão da Silva

Parte 1

 

O presente artigo originou-se de uma conferência dirigida a estudantes e docentes de pós-graduação em administração e buscou responder às demandas postas relativas à convivência nas organizações em geral e de modo especial nas escolares.

O tema da convivência nas organizações escolares exige cada vez mais, de forma dramática, a atenção de todos que se dedicam à Educação.

No mundo acadêmico o problema da convivência humana vem sendo tratado com o título de relações humanas.

É, geralmente, sob a égide dessa denominação que se oferecem aos gestores escolares o conhecimento disponível sobre o assunto.

Por isso, no presente artigo a abordagem do tema será feita sob dois enfoques: de um ponto de vista da didática do ensino de administração e de um ponto de vista do conteúdo da administração.

O tema Administração e Relações Humanas é muito antigo e, presentemente, vem sendo retomado, apresentando muitas vezes dificuldades de exposição e gerando muita polêmica.

A primeira coisa que deve ser colocada, é que quando se fala em relações humanas, tem-se presente a ideia da Escola de Relações Humanas. Não é bem sobre isso que vamos falar, mas, basicamente, refletiremos sobre o que é Relações Humanas do ponto de vista da administração e do ensino, e de como vem sendo feito o tratamento desse tema.

 

Relações Humanas e Cientificismo

 

Desde o surgimento da Escola das Relações Humanas, e um pouco antes até, havia a ideia de que seria possível entender as relações humanas cientificamente; ou seja, a ideia de que existira uma ciência capaz de compreender como deve se dar o relacionamento humano. Por exemplo, a Psicologia tenta dizer como é que as pessoas devem se relacionar. Para isso ela tem uma visão do homem, do mundo e do que seja o relacionamento entre as pessoas.

A teoria da Dinâmica de Grupo afirma ter descoberto a maneira correta, adequada das pessoas se relacionarem. A Ética, entendida como moralidade, também dita regras de como as pessoas devem se relacionar.

Uma postura eivada de cientificismo foi levando ao problema que vamos abordar. Como as pessoas devem se relacionar na escola, na empresa? A resposta a esta questão varia de um grau mais requintado a um grau menos requintado de explicação. Podemos até citar exemplos de pesquisas altamente científicas de como persuadir pessoas.

Essa ideia, a de descobrir cientificamente, como as pessoas deveriam se relacionar, levou a um cientificismo exagerado o tratamento das relações humanas e chegou ao esquecimento do sujeito que faz as relações humanas.

As pessoas começaram a ser vistas como objetos de análise. A abordagem psicológica, muitas vezes, tenta descobrir como é o aluno, como é o professor e com o decorrer do avanço do conhecimento científico, esquece que aquele aluno ou aquele professor é uma pessoa, e não um objeto de conhecimento apenas.

Vivemos no domínio cultural da ideia de que a ciência diz como devem ser as relações humanas. Não é verdade que a Psicologia erre sempre, e que também a Psiquiatria, a Didática, o Administrador e o Gerente errem sempre. Eles sabem muito bem como agem as pessoas, e como se deve tocar e mexer com elas.

O que a abordagem cientifica não capta é a totalidade da pessoa. Ela capta aspectos da pessoa, porque tal abordagem é analítica. As ciências fazem análise das pessoas, assim, como todas as teorias administrativas abordam sempre aspectos das pessoas. Entretanto, as pessoas são mais do que estas análises. Eles resistem a isso, fogem do controle e da previsão dos cientistas que tentam dizer como elas se comportam.

Na empresa, assim como na escola, o comportamento das pessoas não é tão previsível, como a ciência do comportamento gostaria que fosse. Aparecem coisas não previstas, comportamentos não esperados. Os comportamentos que não coincidem com a teoria são considerados como desviantes. Uma tentativa histórica do controle de desvio foi a teoria da Burocracia de Weber. Sua proposta foi a de tentar a previsibilidade do comportamento, através da despersonalização das pessoas. O que importa são as regras e os objetivos escritos que regem a relação entre as pessoas e não as pessoas.

Tudo isso significa uma tentativa de evitar que a totalidade da pessoa se expresse; de colocação de parâmetros para que as pessoas se manifestem ordenadamente.

Atualmente o problema do administrador das grandes empresas não é tanto o de controlar as pessoas, mas de controlar o espaço destinado às pessoas para tomarem decisões. Nesse espaço, normalmente, não cabe a pessoa toda. A tentativa de estudar as relações humanas de um modo científico, tal como vem sendo feito, significa um enclausuramento da complexidade da pessoa humana. Isto leva a uma alienação da pessoa no sentido de que esta não está globalmente presente naquilo que faz.

Hoje as empresas resolvem este problema com recompensas financeiras, materiais ou simbólicas.

O conflito entre a pessoa e a organização, por exemplo, soluciona-se sem que a pessoa como um todo seja levada em conta pela organização.

No caso da escola, por exemplo, os grandes problemas dos alunos não são tocados, como é o caso da opção profissional, afetiva, política, de valores, autoimagem e outros. A burocracia gerou todos esses problemas.

Atualmente, as empresas tentam se desburocratizar, tendo em vista a rigidez que acabam tendo, o que as atrapalha no relacionamento com o ambiente.

A burocratização penetrou em todos os aspectos da vida cultural. Ela está presente na educação, ou seja, na relação escolar, tentando despersonalizar as relações, colocando de um lado o aluno, que como aluno, deve viver o papel de aluno e o professor vivendo o papel de professor. Se o aluno tem algum problema que o professor poderia ajudar, este prefere não interferir, porque isto não é competência do professor, ou então, se o professor tem algum problema, os alunos não devem levar em conta porque isto não é problema deles.

O mal que isto acarreta, evidentemente, segundo a visão do homem que tenhamos, é que esta relação não deixa expressar toda a potencialidade das pessoas.

No caso da escola, normalmente cai a motivação, as relações ficam áridas, sem significado, e as pessoas perdem o gosto de viver aquela relação, porque, alguns aspectos centrais da pessoa não são levados em conta naquela situação. A pessoa tem de, como que mortificar um pedaço dela para poder viver aquela situação. Falar de Relações Humanas em Administração numa sociedade burocratizada supõe superar esta mesma burocratização.

Nas relações educacionais ocorre esta burocratização. O aluno tem que ter um desempenho prefixado implícito ou explícito. O professor não pode ser ele mesmo. É uma situação mais ou menos geral em toda a sociedade.

Como podemos pensar em superar esta burocratização que leva a relações humanas deterioradas?

 

Em busca da superação da burocracia

 

Existem duas maneiras erradas de tentar superar isto. A discussão destas formas equivocadas de solução, em ambientes radicalmente ideologizados, costuma gerar muita polêmica.

A tentativa básica é tornar a pessoa não objeto, mas sujeito.

Maslow admitia que a pessoa tem várias necessidades hierarquizadas; satisfeita uma aparece outra. Para fazer com que a pessoa seja ela mesma, devemos atender suas necessidades. A necessidade básica é a criativa, de realização, de poder propor o ambiente.

Isto é a vontade de ser sujeito, de não ser objeto só, se bem que, querer ser objeto esteja muito presente, patologicamente, nas organizações. Existem pessoas que preferem ser dirigidas, ao invés de assumir iniciativas. Isto é uma patologia.

Normalmente, a pessoa sadia gostaria, afirma Vitor Frank, de mostrar como ela é, construtivamente.

O desejo de ser sujeito é verdadeiro, mas lidar com isso não tem sido fácil nas organizações.

A uma determinada maneira de lidar tenho chamado equívoco classista. É a idéia de que o sujeito seja a classe social.

É uma forma que veio sendo proposta mais no âmbito do pensamento marxista, que em muitos países desta orientação já foi superada há alguns anos e que no Brasil está começando a ser. Basta a pessoa tomar consciência da classe a que pertença para que ela se torne sujeito; basta o operário saber que ele é da classe proletária, que, automaticamente, vai ter um comportamento adequado a esta consciência de classe; historicamente, vê-se que isto não tem sido verdadeiro, porque ao lado do operário que luta no sindicato existe aquele que é contra o próprio colega. Temos o pelego e o sindicalista engajado, e os dois fazendo parte da mesma classe objetiva.

Não basta a objetividade de pertencer a esta classe, ou aquela, para automaticamente ganhar a consciência. A ideia da teoria sociológica econômica que entrou entre nós aqui, mecanicistamente, é de que basta pertencer a determinada classe para que a respectiva consciência de classe venha. Isto está sendo superado, porque se percebe que há necessidade de mais coisas para que a pessoa se torne sujeito. Não basta eu não ter os meios de produção, para que eu tenha consciência, ou, por outro lado, não basta o outro ter os meios de produção, para também ter consciência da classe à qual pertence. Por exemplo, se falarmos “o professorado brasileiro” como uma entidade unívoca, basta lembrar que só na área do ensino oficial, temos diversificadas associações ligadas ao professorado brasileiro com características distintas umas das outras. Então, quando se fala “professorado”, é um equívoco julgar que todos aqueles que sejam professores, só por essa condição, tenham a mesma consciência.

Historicamente, essa posição simplista e mecanicista, vem se mostrando equivocada. Esta crítica vem sendo feita até pelos próprios teóricos marxistas.

Outro equívoco, que é também muito dominante, é a ideia de que a pessoa se torna sujeito individualmente.

Desta perspectiva surge a ideia dos “grandes homens”, muito presente na nossa cultura.

“Se alguém era massa agora tem que ser sujeito, mas vai ser sujeito individualmente”. A idéia de que a pessoa se faz por si mesma, a ideia de que se transforma, da noite para o dia, num grande homem, é uma ideia equivocada. Continuamente ouvimos dizer que está faltando um homem para resolver o problema do país, ou da escola.

Com esta ideia é mais difícil de se discutir e mostrar o equívoco, porque ela está muito presente em nossas cabeças. Parte-se do princípio de que a pessoa é uma coisa boa, como alguém autônomo, com liberdade, mas, esta pessoa se transforma num indivíduo. Porém, o que é um indivíduo? É quem esquece que só se constitui pessoa junto com os outros. Passa-se a imaginar que seja possível à pessoa pensar sozinha. Se ficássemos retirados, durante muito tempo, de qualquer contato, até nosso comportamento se modificaria.

Mesmo para a sobrevivência física necessitamos uns dos outros, e a história que parece para adolescentes, de que alguém faz o pão que se come, mas antes dele chegar à mesa houve muito trabalho (sementeira e corte do trigo, transformação industrial, etc.) é verdadeira. Portanto, não dá para se pensar em viver isoladamente, visto que o maior castigo que se pode dar ao encarcerado, é a solidão na solitária. Ele tem medo de ficar sozinho, porque perde a possibilidade de referência. É da constituição humana a necessidade de relações sociais.

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*Artigo publicado na Revista Collatio, São Paulo, nº. 13 out-dez, p. 5-14, 2012. Centro de Estudos Medievais - Oriente & Ocidente e Instituto Jurídico Interdisciplinar. Universidade do Porto - Faculdade de Direito)



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