A necessidade de compreender seu campo de conhecimento

 

A necessidade de compreender seu campo de conhecimento

                                                                   Arquivo Pessoal
 

Um conceito, a meu ver, pouco aprofundado em nosso país e menos ainda democratizado, é o de campo de conhecimento.

Hoje convivemos com um número muito grande de informações que, todavia, nem sempre podem ser chamadas de conhecimento.

A distinção que faço entre informação e conhecimento tem sentido quando pensamos na existência das comunidades de conhecimento que, muitas vezes, coincidem com as comunidades acadêmicas. Como exemplo, podemos pensar nas inúmeras dietas para perda de peso que surgem como informação nas redes sociais que diferem daquelas que possuem uma chancela de uma reconhecida comunidade de conhecimento tal como a dos nutricionistas.

O conhecimento hoje ao qual tem acesso, na formação inicial, a maioria dos profissionais é resultado de uma organização baseada em áreas e disciplinas. A articulação entre estas áreas e disciplinas fica mais como um trabalho pessoal de cada estudante do que responsabilidade da instituição de ensino. Algumas iniciativas de ensinar por projetos ou por problemas ainda não contemplam a totalidade dos fatores em jogo.

Ivani Fazenda, pesquisadora reconhecida nacional e internacionalmente sobre o tema da interdisciplinaridade aponta a existência de três modalidades dominantes na forma de abordar a questão: uma que valoriza mais a integração conceitual – francesa -, outra que valoriza mais a integração na ação, por projetos – norte-americana - e, finalmente uma que valoriza mais a integração entre as pessoas – brasileira -.

Penso que a noção de campo de conhecimento pode contribuir para a integração destas três dimensões.

Um campo de conhecimento constitui-se mediante a existência de um objeto, uma metodologia de estudo e trabalho com este objeto e uma prática social.

O grande intelectual italiano Luigi Giussani já assinalava que o objeto é que determina o método e não o contrário; essa afirmação encontra ainda muita resistência em diversos ambientes acadêmicos.

A escolha do objeto é fundamental para a constituição do campo de conhecimento e isso em todos os setores de trabalho. Vejamos um exemplo corriqueiro na vida de muitos acadêmicos coordenadores de curso que são chamados a propor cursos de extensão ou especialização. Se o objeto é “práticas de enfermagem no cuidado de idosos” a extensão do campo será menor do que “cuidados de saúde com idosos”. O processo de produção pede uma clara especificação do objeto, com uma estratégica visão desse mesmo objeto.

Um fato casual chamou-me a atenção e pode exemplificar de forma simples a importância da escolha estratégica do objeto: em uma feira livre da Capital Paulista pude ver duas barracas que vendiam produtos similares – coco e mandioca -. Uma delas vendia os cocos já secos e fechados e as raízes de mandioca com casca, “in natura”. A outra vendia, também, os mesmos cocos secos, as mesmas mandiocas “in natura”, mas vendia também pedaços de polpa de coco partidos, sem casca; coco raspado, cocada preta, cocada branca. Vendia, ainda, mandioca já descascada e embalada em sacos plásticos com água e vendia, ainda, mandioca cozida. Evidentemente, este vendedor ampliou o objeto de sua pratica social e utilizava uma metodologia mais flexível o que o levava a oferecer mais produtos que o outro.

Um campo de conhecimento apresenta fatores organizadores em torno dos quais podem ser agregados os conhecimentos e, dessa maneira, a produção e gestão desses conhecimentos tornam-se mais racionais, práticos e permitem sua distribuição democrática.

O campo de conhecimento da educação 

Arquivo Pessoal

O exame da constituição do campo de conhecimento educacional pode contribuir para uma atuação mais compreensiva do processo educativo, nas diversas modalidades em que se apresenta.

  Nos conhecimentos que se referem ao processo educativo um conceito organizador crucial é o de situação educativa, que pode ser entendida como um percurso, de um ponto a outro, através de um caminho, guiado, com a adesão consciente e livre do educando. Três momentos podem ser destacados para fins de análise e constituição da situação educativa: um ponto de partida – os pressupostos antropológicos e gnosiológicos -, um ponto de chegada – os fins e objetivos -, um caminho – o método -.

A visão antropológica condiciona o agir educativo do educador, dado ser este um ente racional que age segundo objetivos que procura atingir adequadamente ao significado que atribui à realidade, a si próprio e aos seus semelhantes. Um educador que veja o educando como alguém fadado ao insucesso e incapaz de aprender, dificilmente empreenderá qualquer esforço para colaborar com esta criança, jovem ou adulto. O educador poupará suas energias para serem utilizadas com algum outro educando “com capacidade de aprender” segundo a visão antropológica que oriente seu trabalho educativo. Portanto, é fundamental oferecer aos educadores uma visão antropológica que apresente o educando como pessoa, dotada de inteligência, liberdade e vontade, capaz de ser protagonista de sua própria vida, capaz de acolher a transcendência e conviver com seus semelhantes de forma cooperativa e amorosa.

Geralmente, não percebemos o peso que possui em nossas ações nossa visão sobre a realidade. Nossas ações estão fortemente condicionadas pela percepção que temos dos fatos e das pessoas. É sabido, por quem atua nas escolas a influência que exerce sobre o professor a visão que tenha sobre seus alunos. É diferente a ação do professor que entra na “5ª. Série F” (eventualmente considerada a mais fraca da escola) daquela quando entra na “5ª. A” (eventualmente a dos alunos mais adiantados). Somos seres vivos e inteligentes, isto é, somos movidos por objetivos eleitos em nossa relação inteligente com o ambiente. Adequamos nossos esforços àquilo que julgamos ser possível de realização: se acreditamos que os alunos não aprendem, não ensinaremos; se acreditamos que podem aprender, procuraremos ensinar.

O ponto de partida, portanto, tem um duplo aspecto a ser considerado: a realidade objetiva do educando (sua história, sua situação familiar, sua experiência – entendida como a vivência com significado -, seus métodos próprios de aprendizagem; suas possibilidades) e a nossa subjetividade que encontra essa realidade (o educando). Entre a realidade fora de nós e nossa ação temos nossa subjetividade composta de sentimento, liberdade, vontade.

Os pressupostos antropológicos e gnosiológicos, ou seja, a visão prévia sobre o que é o homem, o que e como conhece, deve ser considerada tanto para o educando quanto para o educador. O ser antropológico e gnosiológico do educador condiciona sua maneira de ver o ser antropológico e gnosiológico do educando.

Uma conhecida fábula ilustra este tema da subjetividade que deve ser levada em conta: a coruja, ao sair para caçar, encontrou o gavião que também iniciava sua jornada em busca de alimento. Ela resolveu avisar ao gavião que não molestasse seus filhotes. O gavião perguntou como ele saberia quais eram os filhotes da coruja. Ela disse: – São os mais lindos! E cada um foi para o seu lado.

A coruja, ao chegar, horas depois, ao ninho, teve a triste visão de seus filhotes despedaçados, sobrando apenas alguns restos de seus corpos. Desesperada perguntou aos vizinhos o que tinha acontecido. Eles disseram que o gavião havia devorado os filhotes. A coruja foi imediatamente ao ninho do gavião e perguntou-lhe porque havia feito aquilo. Ele, totalmente confuso, disse: – Pensei que não fossem seus filhos, pois eram muito feios.

Essa pequena história nos chama a atenção para a importância do olhar com o qual vemos a realidade. Como distinguir os verdadeiros “filhos da coruja”?

Uma visão antropológica pode ser condensada em afirmações sobre o homem, de modo a responder à pergunta: Quem é o homem?

O homem é um ser capaz de constante aperfeiçoamento. É dotado do desejo do bem, da verdade, da justiça. Desenvolve-se mediante a superação de fases que se apresentam com necessidades específicas e caracterizadoras do momento. Cada fase deve ser vivida como ocasião de fazer experiência significativa que contribui para uma vida feliz. Esta experiência deve tornar a realidade plena de significados e de demandas que são respondidas na condição de pessoa, ou seja, de ser que descobre o Belo, o Bom, o Verdadeiro, na relação com as outras pessoas.

O homem é um ser dotado de esperança e esta espera pode se dar a partir da percepção de que a realidade possui um desígnio bom, sendo amiga e não inimiga. O semelhante que busca comigo esse desígnio não é meu objeto de posse, mas antes, alguém com quem  compartilho um destino bom.

O homem aprende segundo o que pode captar e, desse modo, o exemplo do educador é fundamental, não se substituindo pela palavra falada ou escrita.

Os fins e objetivos expressam a visão teleológica que o educador tem sobre o homem. Um consenso atingido pela comunidade educativa internacional indica como fins da Educação os quatro pilares propostos pela UNESCO e que são: Aprender a conhecer; aprender a fazer; aprender a viver juntos, a conviver com os outros; aprender a ser.

Aprender a conhecer é ser introduzido na totalidade da realidade e, desse modo, perceber-se como pertencente a uma história que começou antes de mim. É aprender a buscar a totalidade dos fatores e a objetividade.

Aprender a fazer é descobrir o trabalho como forma de interação e construção social. É reconhecer o próprio limite e a necessidade do outro para que eu possa viver. É também, encontrar um método de fazer e ver-se como criador e construtor que colabora para a manutenção da vida humana na terra.

Aprender a viver juntos, a conviver com os outros é descobrir-se como pertencente a uma comunidade humana sem a qual eu não vivo. É passar de um simples estar no mesmo espaço para um estar com o outro em solidariedade de destino. É reconhecer a inelutável dignidade de cada ser humano que não pode ser instrumentalizado para nenhum projeto, por mais aparentemente nobre que este seja, e, assim, de modo especial no trabalho educativo, valorizar a intenção, o processo e não só os resultados como produtos.

Aprender a ser é aprender a tornar-se pessoa, o que significa descobrir o que nos constitui, ou seja, o desejo de felicidade.

Outro elemento constituinte da situação educativa é o método. O método, a rigor, confunde-se com a totalidade da educação, uma vez que nele estão presentes os pressupostos antropológicos e gnosiológicos, as finalidades e os objetivos. Método é caminho. Educar é caminhar em companhia do educando, sabendo o educador de onde parte e para onde quer chegar. É caminhar com a adesão consciente e voluntária do educando.

É importante ter claro quem é o sujeito educativo, quem conduz o processo educativo. Na educação básica, de modo especial, torna-se crucial ter presente a importância da família como sujeito educativo por excelência ao qual a escola presta ajuda subsidiariamente.

Quando a educação ocorre na instituição escolar caracteriza-se por ser intencional, sistemática e progressiva.

A escola organiza seu trabalho educativo em um currículo que é o conjunto de experiências que ela oferece ao educando. Um currículo pode ser compreendido e avaliado conforme sejam seus temas (presentes ou ausentes), os juízos de valor sobre estes temas e as formas de veiculação destes temas.

Em uma organização escolar, o trabalho pessoal de cada educador deve estar articulado com o dos demais educadores e, desse modo, o trabalho comunitário é fundamental para que objetivos comuns e procedimentos articulados e adequados a estes objetivos ocorram.

Para isto, o Projeto Pedagógico da Escola, no caso da Educação Básica, ou o Plano de Desenvolvimento Institucional, no caso das Instituições de Ensino Superior, são guias para a ação dos profissionais da educação. Desse modo, os educadores precisam desenvolver a capacidade de planejar, trabalhar em conjunto, relacionarem-se com seus pares, educandos, familiares, todos os envolvidos no processo educativo.

Outros conceitos, além de situação educativa, tais como, educação escolar, organização escolar, currículo, ciclo didático, entre outros, contribuem para capacitar o docente a pensar sua prática e, se necessário, modificá-la. A noção de ciclo didático como a forma pela qual o docente realiza seu trabalho de ensino-aprendizagem com os alunos, permite pensar o planejamento, a execução e a avaliação como momentos em que, respectiva e predominantemente, se dá a seleção de conteúdos, o desenvolvimento metodológico e avaliação não só do “aprendido”, mas também do “ensinado”.

Um maior conhecimento do campo educacional não ocorre, geralmente, de forma espontânea: há a necessidade de estudos sistemáticos, nas modalidades em que as situações concretas permitam: seminários, leituras dirigidas, cursos de atualização, etc. O importante é que o docente perceba a necessidade de sua formação e tenha oportunidade de realizá-la de forma sistemática e continuada. É nosso desejo, com este blog, colaborar para o aprimoramento dessa formação.

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